Afinal, por que homens não podem usar saias? | Blog Calça Thai

Afinal, por que homens não podem usar saias?

07 Junho 2016
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Escrito por J. Del Rosso

Afinal, por que homens não podem usar saias?

Falamos recentemente sobre moda unissex e explicamos a razão pela qual acreditamos que as Calças Thai são ideais não apenas para diversos tipos de corpos, mas para ambos os gêneros. Esta discussão fez com que surgissem algumas outras questões, entre as quais estão: por que o fato de homens utilizarem vestimentas consideradas “femininas”, como saias ou calças de modelagem saruel, nos causa estranheza? Por que o público masculino brasileiro, num geral, tem tendência a rejeitar peças de roupa que, embora mais confortáveis, denotam certa “feminilidade”?

Para pensar sobre isso, vamos partir de um dado sociológico: os conceitos de masculino e feminino, tal como os conhecemos por aqui, foram construídos socialmente. Não existem comportamentos inatos ao sexo biológico, se pararmos para pensar. O que existe é uma repetição de padrões de gênero - os quais, por sua vez, são muito anteriores à existência do próprio sujeito. Uma criança que nasce dentro de uma determinada região, regida por um governo específico e dentro de um grupo social fechado, terá a tendência de agir e reagir conforme dita a cartilha de hábitos e regras em voga. Isso inclui, claro, a forma como este indivíduo se colocará no mundo não só enquanto pessoa, mas enquanto homem ou mulher.

A cultura ocidental é profundamente marcada pela diferenciação entre os gêneros, separados de forma bruta não só entre “masculino” e “feminino”, mas entre “rude” e “frágil”, “forte” e “fraco” e, provocativamente, até entre “dominador” e “submisso”. Neste ínterim, ser um homem com características tidas como deveras masculinas é, via de regra, considerado correto. Um homem com trejeitos socializados como femininos ou que se encaixa em um comportamento combativo ao proposto pelo “modus operandi” masculino não é apenas rechaçado socialmente, mas apontado como um desviante em termos culturais.

Sean Connery usando kilt escocesa

Sean Connery usando um kilt escocês

Isso posto, é curioso pensar em como artigos que são vistos como “exclusivamente femininos” no Brasil fazem parte de outras culturas (algumas ocidentais, inclusive) e se encaixam no padrão de masculinidade vigente. Na Escócia, por exemplo, diversos homens usam o kilt, que é uma vestimenta de modelagem análoga à saia feminina. Longe de ser uma peça mal vista por lá, o kilt é, além de uma demonstração de orgulho da identidade escocesa, um item bastante masculino. O mesmo acontece com a fustanela grega, que se caracteriza por uma saia rodada que, frequentemente, fica um pouco abaixo ou acima dos joelhos.

Fustanela grega

Homens vestindo Fustanela

No lado oriental, por sua vez, temos mais algumas situações interessantes: em várias regiões da Índia, os homens vestem-se com uma peça chamada dhoti, um tecido longo que muito se parece com as saias longas e "femininas" que vemos no ocidente. O achkan, um casaco de mangas compridas e botões que, além de ter uma modelagem próxima à de um vestido, pode chegar aos joelhos, também não é incomum (especialmente entre homens muçulmanos). Um fato bem interessante, aproveitando a deixa, acontece na Indonésia: por lá existe o sarong, um tecido que, ao ser enrolado nos quadris, cria a modelagem de uma saia. A peça é utilizada por ambos os gêneros e compõe parte importante da cultura local.

Grupo de homens usando sarong

Grupo de homens usando sarong

Diante do exposto, nossa primeira percepção se reforça: o masculino e o feminino não são apenas criados culturalmente, mas são vistos de formas diferentes em locais distintos. Embora contemos com a mídia para divulgar o estilo de vida ocidental (e, portanto, todas as minúcias que compõem o “ser” homem ou o “ser” mulher do lado de cá do planeta), hábitos culturais dificilmente serão rompidos de uma hora para outra. Cabe a nós, com esta outra percepção, tentar enxergar novas possibilidades de existência - e coexistência - dentro de um mundo multicultural e, talvez por isso, tão fascinante.

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